ligando os motores
alexa, tocar "vroom vroom" da charlie xcx
eu sou apaixonado pelo formato newsletter. a ideia de receber no meu e-mail um conteúdo em texto, quase como uma cartinha escrita a mão para mim, e passar alguns minutos lendo palavras em uma tela com calma, em vez de rolando um feed infinito de vídeos curtos que variam entre tutoriais de maquiagem (não sei maquiar), tutoriais de dança (não sei dançar) e homens bonitos (nenhuma objeção), é algo que melhora o meu dia de maneira considerável.
no finalzinho do tenebroso ano de 2020 iniciei uma newsletter paga, na intenção de financiar minha vida de escritor após pedir demissão do meu também tenebroso emprego de escritório. deu tudo certo e, após mais de 40 e-mails enviados, acabei encerrando o projeto porque me sentia um pouco charlatão cobrando dinheiro das pessoas em troca das minhas palavras quando eu achava que tinha tão pouco a dizer. sinto que continuo tenho pouco a dizer (e quando tenho muito a dizer, geralmente acabo escrevendo um livro), mas desta vez vou dizer de graça, o que diminui um pouco o fator culpa.
a verdade difícil de engolir é que eu sinto falta do que o twitter foi para mim um dia. meu diário de daniela onde eu escrevia tantas coisas. meu banquinho metafórico na praça da sé onde eu subia e gritava opiniões e profecias fatalistas para quem quisesse ouvir. meu amado microblog. minha conta ainda está lá, existindo em meio a uma chuva de publicações da extrema direita e imagens geradas por inteligência artificial do elon musk montado numa águia e segurando um fuzil. mas não é a mesma coisa. sinto falta disso aqui. de parar na frente de um teclado e digitar coisas. não apenas coisas que uma hora ou outra virarão histórias e serão impressas num livro, mas as coisas menores que passam pela minha cabeça e que, racionalmente, eu sei que têm pouco valor, mas pelo bem ou pelo mal, a psicanálise me faz dar muita importância ao que eu penso.
semana passada, por exemplo, estava fazendo uma tatuagem nova no braço. no meio do bzzzzz bzzzz das agulhas, alguém falou alguma coisa sobre um “milkshake” e eu entendi “míope shake”. dei uma risadinha, abri o aplicativo de notas no celular usando o braço que não estava sendo tatuado e digitei “míope shake”, imaginando um mascote que é um milkshakezinho de óculos, porque ele é míope. eu tuitaria sobre o míope shake, mas esse conceito idiota, fruto da minha audição meio ruim, me pareceu puro demais para se misturar com o elon musk voando em cima da águia. poderia falar sobre este ocorrido no bluesky, mas a vibe “ninguém solta a mão de ninguém” deste aplicativo que veio para salvar os órfãos do antigo twitter me causa um pouco de desconforto. então, aqui estou eu, literalmente captando uma lista de e-mails para enviar para você, semanalmente, este tipo de bobagem numa newsletter que, pelo desespero em busca de num nome ideal, decidi chamar de VITÃO AUTOPEÇAS. porque eu gosto de escrever essas coisas. e se você gosta de ler as coisas que eu escrevo, está no lugar certo! mas se você gosta de autopeças e caiu aqui desavisado, tenho péssimas notícias.
também tenho coisas sérias a dizer, é claro. preciso de um espaço para comentar sobre o final de ruptura que, enquanto escrevo este texto, ainda nem existe e eu já sei que vai me deixar abalado. falar sobre meu aniversário de 34 anos que será no próximo domingo, marcando meu último ano de vida em que estarei mais perto dos 30 do que dos 40, e também sobre o que estar mais perto dos 40 significa para um gay (morte e renascimento, talvez? a descobrir). falar sobre o livro que vou lançar em breve que, coincidentemente é sobre um gay que está mais perto dos 30 do que dos 20 e dá uma surtadinha ao perceber que nada na vida dele é permanente porque ele passou esse tempo todo fugindo de qualquer comprometimento por medo de significar alguma coisa para alguém. e falar também sobre os livros que eu já escrevi, que seguem me enchendo de orgulho e realização enquanto encontram novos leitores e ganham novas versões em outros formatos. então, sim. eu tenho coisas para falar. só demorei um pouco para encontrar o meio certo para a mensagem.
toda essa minha insatisfação com a forma com a qual eu consumo e produzo conteúdo na internet tem sido provocada por uma série de fatores. além do cansaço mental que ganhei de presente após passar seis meses servindo fielmente ao algoritmo no ano passado para divulgar o lançamento do meu livro mais recente, mais ou menos 9 horas, tenho sentido falta de me conectar de forma substancial com outras pessoas. essa falta se mostrou ainda mais evidente nos últimos meses, onde mergulhei de cabeça num projeto de tradução desafiador de um livro de não-ficção sobre a atitude socrática e a arte de fazer boas perguntas durante conversas profundas.
sócrates é conhecido por não saber de nada. por ser curioso e querer sempre buscar conhecimento de forma coletiva. por fazer perguntas filosóficas aos seus entrevistados na frente de um público ávido por sabedoria e entretenimento, criando assim, o “de frente com blogueirinha” da grécia antiga. e uma atitude socrática exige (dentre um milhão de coisas) intenção. vontade de perguntar e de aprender, mesmo sabendo que no fim das contas não há uma resposta definitiva para nada. suas perguntas só vão te trazer mais perguntas. e me analisando com calma, talvez seja isso que eu esteja buscando aqui, ao voltar a escrever uma newsletter sobre tudo e também sobre nada. botar para fora os textos que fazem meus dedos coçarem querendo sair, e compartilhar com pessoas interessadas em gastar alguns minutos do dia consumindo palavras. se este alguém é você, fico feliz que a gente se encontrou 🫶🏻
essa foi uma newsletter introdutória, para falar um pouco sobre o que trouxe até aqui e quais são minhas motivações para continuar escrevendo. nos encontraremos novamente semana que vem com, provavelmente, mais perguntas do que respostas.
links da semana


ecos do deserto já está disponível, tradução que fiz para a pitaya (selo jovem adulto da harper collins brasil). este é o novo livro do abdi nazemian, o brasileiro honorário que visitou a bienal do rio de janeiro em 2023 e voltou para Los Angeles com cpf e carteirinha do sus. talvez seja o livro mais pessoal do autor, triste toda vida porém lindo na mesma medida.
les normaux: garoto encontra vampiro, está em pré-venda pela editora seguinte. um quadrinho gay gay gay que eu traduzi com um sorrisão de orelha a orelha. um romance fofo para quem gostou de heartstopper, com um toque sobrenatural, personagens carismáticos e uma arte linda demais. vocês vão gostar.
obcecado pelo autópsia, novo projeto do getúlio abelha. uma mistura queer e gostosa de brega, eletrônico, saxofones sensuais e um batidão safado de vez em quando. quando ele canta “e o que me resta é fazer absurdos e ter uma uma história insana a contar” na primeira faixa, freak, é meio que impossível não pensar “nossa, tão eu”.
apesar de andar mais quietinho do que nunca, meus livros ainda existem e estão disponíveis na sua livraria favorita, física ou digital. leia para ter uma vida mais feliz.




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assinava a sua newsletter antiga e fico feliz de saber que agora terei a chance de acompanhar uma versão nova dela 🩷